domingo, 20 de fevereiro de 2011

Mas não se mata cavalo?

Num post anterior comentei que a Anita O’Day começou a cantar, ainda adolescente, em maratonas de dança prá driblar a ‘dureza’ e comer de graça. Tais maratonas eram comuns nos EUA durante a crise financeira de 1929 que levou aquele país a viver momentos de privação, desespero e miséria tão comuns nas classes exploradas de países de ‘Terceiro Mundo’, como o Brasil. A bem da verdade, tão ‘normais’ nas classes exploradas de qualquer país, mas cujas cenas ficaram ‘grudadas’ no imaginário apenas dos países ‘periféricos’ dos quais se nutre o capitalismo ‘central’ ou do chamado ‘Primeiro Mundo’.


"Mas não se mata cavalo?" é o título em português do livro “They shoot horses, don’t they?”, do escritor estadunidense Horace McCoy, cuja obra foi adaptada para o cinema e virou filme em 1969, sob direção de Sydney Pollack, mantendo o mesmo nome em inglês, mas ganhando o título de "A noite dos desesperados" aqui no Brasil.

O filme revela o lado perverso das ‘maratonas de dança’ (e haveria um lado ‘não-perverso’?), em que miseráveis tentavam conquistar um prêmio por sua capacidade inumana de resistência, dançando dias e dias sem parar, em troca de três refeições diárias e um prêmio em dinheiro. Nas ‘maratonas’, precursoras dos atuais ‘reality shows’, as pessoas faziam qualquer coisa para ganhar uns trocados: naquelas, o último casal a cair exausto ganhava o prêmio, mesmo que isso representasse a morte do vencedor.

Além disso, ao mesmo tempo, participavam de um ‘derby’, simulacro de corrida de cavalos comandado por algum sádico mestre-de-cerimônias, que incitava a platéia a torcer por seus favoritos e desclassificar os ‘fracos’, jogando uns contra os outros e prometendo o estrelato aos patéticos candidatos à fama. Daí o título em inglês, “They shoot horses, don’t they?


A ação de "A noite dos desesperados" acontece nos anos 30, durante a Grande Depressão dos EUA, e é uma parábola sobre o capitalismo. A história cruza as vidas de vários personagens numa ‘maratona de dança’, uma daqueles cruéis competições de esforço e resistência para derrotados sociais, onde o casal central vive e registra toda a hipocrisia e sordidez com que a nossa sociedade costuma ‘cobrar’ a sobrevivência de alguns e a morte de outros tantos.

O filme é deprimente e ao mesmo tempo uma pérola: imperdível!

Não vou contar detalhes, mas veja o trailer. Quem sabe alguém aluga o DVD?




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