sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Boas energias: tão longe, tão perto

Sabendo que eu gosto de jazz e blues, um dia o Beto Pegoraro colocou um DVD prá tocar: ‘quem é que está cantando?’, perguntou. Eu escutei aquela voz feminina cantando “Imagination, is funny...”, fiquei ouvindo, atento, e nada. Passei prá outra faixa: “Everybody’s somebody’s fool, the world is the biggest school…” Nada.

There's a somebody I'm longing to see, I hope that she turns out to be someone who'll watch over me…”. ‘Essa eu não conheço’, me rendi.

Não é ‘essa’, disse o Beto, é ‘esse’. ‘O nome é Little Jimmy Scott e foi o Bira quem me deu esse DVD, que ele mesmo copiou’.

Tive dois, apenas dois, contatos breves com o Bira.

O mais ‘de perto’, foi numa entrevista realizada na BAND sobre o GAPA/RS, Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS no Rio Grande do Sul, onde eu trabalhei como voluntário de 1989 a 1999.

O outro momento, ‘de longe’ e anterior, foi durante uma viagem a Criciúma, Santa Catarina, num verão dos anos 80. O Gilberto Pegoraro, primo do Beto e meu amigo de primeira hora, morava e trabalhava em Criciúma e nós estávamos indo passar o Carnaval com ele. Acho que foi no próprio sábado de Carnaval, pela manhã e tava um dia lindo. Estávamos eu e mais alguns amigos no carro do Beto e, prá nossa surpresa, quando chegamos à ponte sobre o rio Araranguá a Polícia Rodoviária interrompeu o trânsito: só passava caminhão pesado, para não correr riscos com a correnteza da água, que já passava por cima da ponte. Tinha chovido muito nos dias anteriores, em Santa Catarina, fato de que a gente não tinha sabido nem se dado conta, e as águas tinham ‘descido a serra’ em direção ao mar e feito o rio transbordar.

Nós e mais um monte de carros e gentes congestionamos a estrada, que passa no centro de Araranguá. Bem, a gente desceu dos carros, fumou, bateu papo, tomou chimarrão, comprou refri e pastel, esperando a ponte ser liberada. Qual o quê! Mas o comércio local adorou!

Em seguida, soubemos que algumas pessoas estavam ‘alugando’ caminhões e passando com seus carros sobre a carroceria. Num desses carros, sobre um caminhão, alguém gritou, abanando: ‘Betooo!’. Era o Bira, cliente dele como cabeleireiro.

Não, nós não alugamos caminhão: fizemos um percurso alternativo, mais longo e demorado, mas mais barato.

Ubirajara Valdez foi jornalista brilhante e apresentador de televisão, bem conhecido no tempo do Jornal do Almoço, na RBS TV. Carioca, nascido em 1953, começou a vida profissional muito cedo, na Jovem Pan, em São Paulo, em 72 e, também jovem, em 1975 veio morar e trabalhar em Porto Alegre, aonde chegou a assumir como diretor-geral da Rede Bandeirantes. Com gosto pelas artes, fez teatro e adorava música.

Morreu de infarto em 2005, em São Paulo, onde estava morando e trabalhando, e hoje habita o cosmos, tão longe, tão perto. Do lado de cá, apesar de nunca ter privado da companhia dele (coisa que lamento, pois sempre achei que era um cara com imensa e positiva energia), também estivemos longe e perto. Perto, porque volta e meia ele invade minha aura. Amém.

Deixou duas filhas, das quais só conheço (também ‘de longe’ e da ‘telinha’) a Paula Valdez, que é jornalista e apresentadora na RBS, e que herdou a simpatia cativante do pai. Foi do blog dela que eu ‘roubei’ uma das fotos (essa aí de baixo).

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Mas não se mata cavalo?

Num post anterior comentei que a Anita O’Day começou a cantar, ainda adolescente, em maratonas de dança prá driblar a ‘dureza’ e comer de graça. Tais maratonas eram comuns nos EUA durante a crise financeira de 1929 que levou aquele país a viver momentos de privação, desespero e miséria tão comuns nas classes exploradas de países de ‘Terceiro Mundo’, como o Brasil. A bem da verdade, tão ‘normais’ nas classes exploradas de qualquer país, mas cujas cenas ficaram ‘grudadas’ no imaginário apenas dos países ‘periféricos’ dos quais se nutre o capitalismo ‘central’ ou do chamado ‘Primeiro Mundo’.


"Mas não se mata cavalo?" é o título em português do livro “They shoot horses, don’t they?”, do escritor estadunidense Horace McCoy, cuja obra foi adaptada para o cinema e virou filme em 1969, sob direção de Sydney Pollack, mantendo o mesmo nome em inglês, mas ganhando o título de "A noite dos desesperados" aqui no Brasil.

O filme revela o lado perverso das ‘maratonas de dança’ (e haveria um lado ‘não-perverso’?), em que miseráveis tentavam conquistar um prêmio por sua capacidade inumana de resistência, dançando dias e dias sem parar, em troca de três refeições diárias e um prêmio em dinheiro. Nas ‘maratonas’, precursoras dos atuais ‘reality shows’, as pessoas faziam qualquer coisa para ganhar uns trocados: naquelas, o último casal a cair exausto ganhava o prêmio, mesmo que isso representasse a morte do vencedor.

Além disso, ao mesmo tempo, participavam de um ‘derby’, simulacro de corrida de cavalos comandado por algum sádico mestre-de-cerimônias, que incitava a platéia a torcer por seus favoritos e desclassificar os ‘fracos’, jogando uns contra os outros e prometendo o estrelato aos patéticos candidatos à fama. Daí o título em inglês, “They shoot horses, don’t they?


A ação de "A noite dos desesperados" acontece nos anos 30, durante a Grande Depressão dos EUA, e é uma parábola sobre o capitalismo. A história cruza as vidas de vários personagens numa ‘maratona de dança’, uma daqueles cruéis competições de esforço e resistência para derrotados sociais, onde o casal central vive e registra toda a hipocrisia e sordidez com que a nossa sociedade costuma ‘cobrar’ a sobrevivência de alguns e a morte de outros tantos.

O filme é deprimente e ao mesmo tempo uma pérola: imperdível!

Não vou contar detalhes, mas veja o trailer. Quem sabe alguém aluga o DVD?




sábado, 29 de janeiro de 2011

Anita indestrutível!


Fazendo pose em New York, 2002.

Anita indispensável!



Nesse clipe, chapadíssima, ela canta “Sweet Georgia Brown” e “Tea for two” para um público meio caretinha e entediado no Newport Jazz Festival em 1958, em cenas do documentário “Jazz on a summer’s Day”. Quase um bálsamo!

Anita O'Day

Anita Belle Colton, essa maravilhosa e respeitada estrela branca do jazz, nasceu em Chicago, Illinois, EUA, em 18 de outubro de 1919. Nasceu numa família pobre e desestruturada: passou poucas e boas, como se diz maliciosamente. Adolescente, começou a cantar aos 14 anos em maratonas de dança. As maratonas, do tipo daquela retratada em ‘Mas não se mata cavalos?’ (‘They shoot horses, don’t they? ’), eram comuns nos EUA na época da Grande Depressão, pós crise financeira de 1929, e faziam enorme ‘sucesso’ entre desempregados: Anita participava delas prá comer de graça e ganhar alguma grana. Já com o nome de Anita O’Day, ‘estourou’ em 1941 como vocalista da orquestra de Gene Krupa, mas o grupo se dissolveu em 43, quando Krupa foi preso por posse de maconha, e Anita só voltou a cantar com ele em 1945.

Depois de um tempo, decolou em carreira solo de sucesso, embora com muitos altos e baixos, apesar do seu imenso talento, criatividade e ousadia para interpretar as músicas que cantava, criando novos ritmos e modalidades de leitura e interpretação musical.


Em 1958 ela fez o maior sucesso no Newport Jazz Festival, cantando divinamente sob o efeito de heroína, como contou mais tarde em suas memórias ‘High Times, Hard Times’ (1981), droga que já tinha detonado sua inspiradora musical Billie Holiday. Depois de uma overdose quase mortal, parou de usar. Maconha e álcool ela continuou usando pelo resto da vida, dizem. Pelo jeitão irreverente e avançadinho com que levava sua vida sexual, além das drogas lícitas e ilícitas que consumia largamente, recebeu o apelido de ‘Jezebel do Jazz’, como se fosse uma sedutora sem escrúpulos. A mediocridade do senso comum não perdoa ovelhas negras.

Anita morreu aos 87 anos enquanto dormia, durante uma hospitalização para tratar de uma pneumona, em Los Angeles, em novembro de 2006.



Anita O'Day - That old feeling