quarta-feira, 9 de abril de 2008

Dissimulações evidentes


Em fevereiro, passei uns dias com o Beto, na casa dele em Garopaba, e fiquei confinado à TV aberta. Na verdade a três canais, mas que seriam os ditos principais, de maior audiência. Nossa!, o que está reservado à maioria dos brasileiros! Lições de mediocridade, moralismo e boçalidade.
Aparentemente, é quase um insulto até mesmo à ignorância. No entanto, tem uma finalidade muito bem orquestrada, inteligente e politicamente articulada: basta ver que se reproduz ali o que igualmente é oferecido através da grande imprensa. Sim, PHA, o PIG está presente ali de cabo a rabo: no noticiário, na telenovela, nos programas de auditório, nos programas supostamente humorísticos e nos reality e talk-shows. Ingenuamente esquecido que o lameirão é o mesmo, lamentei a falta da TV paga.
Noite destas, querendo não pensar muito, liguei a TV prá me distrair zapeando pelos canais a cabo, e de repente entrei no meio do Saia Justa. Já não tenho a esperança de encontrar a inteligência da Rita Lee, mas nunca me sinto devidamente prevenido quanto ao que vou ver e ouvir. Para os meus princípios, o quarteto vem se comportando quase como uma choldra indecorosa, abertamente quando se trata do governo Lula. Mas, nessa noite, falavam sobre a importância da liberdade de expressão de idéias, de opinião.
A Márcia comentou elogiosamente a ação judicial movida pela ONG gaúcha Themis - Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero contra a gravadora que veiculou aquela música (não sei o nome!) que tem o refrão “um tapinha não dói, um tapinha não dói”. Nem entro na questão da construção desequilibrada dos poderes de gênero. Quero comentar apenas que a Mônica pulou, com o autoritarismo e o senso comum de sempre: “não quero que um juiz decida o que posso ouvir ou não”, defendendo com aparente intransigência a liberdade de opinião e de expressão de todos. E disse que isso não aconteceria nos Estados Unidos por conta do que determina the first amendment constitucional. Além da visão rasa desse dispositivo, o que me doeu foi colocar aquele país como modelo de democracia! Não, ela não se voltou para países europeus que têm avançado no respeito aos direitos individuais: ela optou pela imagem da propaganda.
Então, foi-se por água abaixo o prazer diletante... Ora, é justamente este tipo de atitude que me incomoda ao âmago quando ouço falar em ‘direitos’ da sociedade moderna à propriedade privada, à liberdade de imprensa, e por aí vai. Direitos de quem? Sim, afinal de contas, quando repetimos esta fala tão melíflua, tão agradável aos ouvidos, estamos falando dos direitos de quem? Gente: devagar com o andor que a hipocrisia é de barro!

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