sábado, 15 de março de 2008

Quase literatura


Eu entendo que um blog, mesmo quando é um arremedo dos velhos ‘diários’, cria uma nova forma de expressão por conta da sua capacidade interativa. Não só porque quem escreve faz uma declaração pública, posto que a expõe numa rede universal, mas sobretudo porque permite comentários a partir dos leitores. O autor do texto não ‘fecha’ sua opinião, embora delimite os contornos de seu ponto de vista.
Ao ler um livro, sempre gostei de sublinhar passagens que me parecem muito significativas. Algumas idéias transformadas em palavras são como a descoberta de significados antes escondidos. Por isso mesmo muitas vezes fiz e faço comentários a lápis na própria página do livro, um hábito só irrealizável quando o livro é de biblioteca ou emprestado por algum amigo. No blog, a possibilidade de comentário do leitor se esboça no tempo real e pode alcançar tanto o autor quanto outros leitores.
As letras não são apenas sinais gráficos que representam o som da fala humana: escrever é especialmente o esforço de fazer a representação de uma idéia. Muitos autores literários têm essa capacidade tão desenvolvida que é como se pintassem quadros, nos quais não se vê apenas coisas mas os seus significados. Essa capacidade fica dilatada no blog, por conta de poder agregar uma foto ou ilustração.

As coisas mais prosaicas, as vivências mais singelas, podem ser coloridas pela força das emoções associadas nesse espaço de diálogo coletivo. Quem vive atentamente decifra revelações no cotidiano. O exercício da escrita, em qualquer mídia, pode representar uma revelação adicional tanto para o autor quanto para o leitor.
Escrever, num blog ou alhures, assim como viver, é sobretudo desfrutar de pequenas epifanias, como diria Caio Fernando Abreu.

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