sexta-feira, 21 de março de 2008

Luas de Sangue


Eu acordei às 3:00 da manhã prá ir ao banheiro e vi a lua. Era uma enorme e nítida bola alaranjada parada no céu. Tantas vezes eu já vi a lua cheia, tantas vezes eu já vi suas cores, e mesmo assim é sempre uma espécie de espanto, uma surpresa, como se eu tivesse de novo o meu olhar de menino. Sei lá, talvez nunca tenha perdido, talvez tenha estado sempre ali e meu olhar de adulto só fica na frente atrapalhando.
A gente envelhece e, dizem, fica mais sábio. Eu não quero a sabedoria: quero a inocência do olhar que tive. Mas a inocência não cabe na velhice, a não ser nestes lampejos da memória, nestas pequenas centelhas de assombro momentâneo.
Hoje é a Sexta-Feira Santa, da Paixão de Cristo. Prá haver a paixão é preciso a lua cheia, essa lua transformista que nasce brilhando como prata e se afasta coberta de fulgores rubros.
É maluco isso de Paixão significar tanto um amor intenso quanto extremado martírio. Seja como for, é sempre uma exaltação da alma. De certo modo, a lua cheia realiza a paixão.
Essa estonteante lua de hoje cedo, no entanto, nem se compara a uma outra, vermelha e enorme que vi quando ia mergulhando no mar Egeu. Na madrugada de 5 prá 6 de setembro de 98, eu estava em Santorini, na Grécia. Ta lá, nos meus escritos da viagem, um registro desse assombro, em dias de indissolúvel paixão. Transcrevo:

(...) Escolho um restaurante com mesas em espaço aberto, e sento numa bem próxima à borda do terraço que se debruça sobre a cidade, voltado para o lado de fora da cratera. Brisa suave embala essa janta com vinho e luz de vela, sob uma lua cheia encantada que acabou de sair.
A magia do crepúsculo ainda está ocupando meu espírito, apesar deste lugar ser igualmente lindo. A noite está suave: não há arestas. A luz tênue do restaurante não compete com o luar. De longe, chegam melodias alegres, mas não há ruídos. A comida estava saborosa. Tudo perfeito. Mas ainda tenho nos olhos o brilho áureo daquele mar. É até difícil definir que cor foi aquela, porque se eu disser dourado, vai lembrar a cor do ouro barroco, emplastrado, pesado. E o que eu vi foi céu e mar ficarem como que recobertos por uma névoa acobreada, de um ouro sutil mas brilhante, como o brilho ofuscante que nos atinge de um tesouro revelado. Aquela cor, eu não sei descrever. O máximo que eu posso dizer, com o risco de provocar algum engano, é que foi um por do sol dourado.
Depois da janta, impossível voltar ao hotel. Saio a caminhar pelas ruelas cheias de gente, completamente embevecido. Dou uma volta grande, vagarosa. Tomo um sorvete, compro uma canga vermelha com peixes amarelos e azuis e, ainda, um tapete colorido para o meu banheiro.
Desperto no meio da noite, com um estranho brilho entrando pelas vidraças da janela. Vou até a janela e não acredito no que vejo. Fui acordado por uma lua cheia cor de sangue, quase tão grande e vermelha como o sol nascente que me recebeu em Madrid: um por-de-lua como nunca visto. Tonto de sono, como se fosse num sonho, sob o estranhamento a que ainda estou preso, acompanho a entrada da lua num mar tingido de púrpura, no mesmo lugar dourado onde pouco antes se pos o sol. Por aqui os astros são tão solenes e têm tanta majestade que é fácil imaginar que são dirigidos por deuses ao cruzar o céu em sua missão diária.
Durmo até tarde, em estado de graça. (...)

(A foto eu roubei de http://www.mreclipse.com/)

Um comentário:

Karina Santos disse...

tem um poema do Quintana: o que há com a lua, que sempre que a olhamos, é com novo espanto?
Bem assim.