domingo, 16 de março de 2008

The Aero

A tela que eu usei prá ilustrar o post Quase Literatura chama-se The Aero e é uma das muitas e maravilhosas telas de Marsden Hartley (1877 – 1943), pintor e poeta estadunidense que eu desconhecia completamente até 1985. Eu tinha ido para os EUA, em junho, através de uma bolsa de estudos do Programa Fulbright, bancado pelo governo daquele país. Estava morando em New Orleans e cursando a Escola de Saúde Pública da Tulane University, mas fui conhecer essa tela em Washington, durante um seminário acadêmico realizado em novembro daquele ano, com a participação de outros bolsistas. Um dia, optei por dar uma volta pela cidade e entrei na National Gallery of Art, sobre a qual tinha lido num destes prospectos prá turista que havia no hotel. Fiquei curioso. Transcrevo um manuscrito daquela época, achado entre meus guardados:

"Lembranças de Washington – Estou cansado do workshop com os Humphrey Fellows. Saio da sessão no Capitólio, um encontro maçante com políticos, democratas e republicanos, e vou até o hotel, o Capitol-Holliday Inn, a poucas quadras dali. Troco de roupa e passo no correio, mandando notícias pro Brasil. Depois da chuva, está mais quente, embora o vento ainda informe que é outono. Sol de meio dia. Do centro comercial na L’Enfant Plaza, caminho até a National Gallery of Art. Encontro surpreendente com alguns pintores, principalmente Monet. (...ilegível...)
Na Gallery, não resisto e vou comprar reproduções de Picasso e Monet. Vejo uma pintura linda, quente, parece um Gauguin. Não é, é outro autor, compro igual. Sigo ainda pelo Museu até a (...ilegível...) e finalmente me vejo frente a frente ao quadro, esfinge: é de Marsden Hartley, 1877-1943".


De fato, vi primeiro a reprodução da instigante tela na lojinha do museu, mas nunca pensei que a tela estaria ali, ao meu lado. Pois lá pelas tantas, voltando às obras expostas, ao entrar num dos muitos corredores, fui súbita e fortemente convocado por uma chama viva, ardente, vermelha, pulsando numa parede. Que coincidência: era a tela da reprodução que há pouco comprara. Mas não existem coincidências! Emoção: era como se ali estivesse concentrada a energia vital de todo o universo, tal o impacto que me causou. Cheguei perto e anotei o nome do autor. Por minutos, não consegui deixar de me envolver na sua visão: era tão linda e comovente, como se contivesse os segredos e a essência de todas a s coisas. Quantas coisas descobri em reflexões provocadas por esta obra. Ainda tenho a reprodução da tela, embora de tão velha esteja apenas guardada, e ainda me impressiona, mas não com o vigor de então. No entanto, até hoje, é a minha imagem preferida para representar uma fulminante revelação.

Nenhum comentário: