quarta-feira, 9 de abril de 2008

Dissimulações evidentes III


Esta imagem e seu conteúdo dispensam outros comentários.

Dissimulações evidentes II


Claro que reconheço, exerço e luto pelo direito de expressar opiniões livremente e acho que a censura é condenável. No entanto, não acho que ‘tudo pode’. Onde ‘tudo pode’, quase sempre resulta que ‘nada pode’. Entendo que o discurso livre exige e tem limitações, no entanto. Existem princípios éticos universais que precedem qualquer outro direito derivado: é moralmente desejável que não se permita voz aos que tentem reduzir ou contrariar estes direitos fundamentais da humanidade. Ou seja, não consigo reconhecer o direito à expressão de idéias que neguem a dignidade, a liberdade, a igualdade e a solidariedade humanas. Não pode haver direito possível, em nenhuma instância, a quem pretenda professar o ideário nazista, por exemplo.
“A explicação do conceito integral dos direitos fundamentais faz-se necessária e urgente em nossa sociedade atual. Nas últimas décadas temos assistido a proliferação de um sem fim de teorias que negam os direitos fundamentais das mais variadas origens, algumas até concebidas em bases pouco sólidas, oportunistas da ignorância endêmica vigente, e fundamentadas em preconceitos sejam raciais, classistas ou de outras origens. Algumas causam danos enormes em sociedades periféricas como a nossa. A teoria neoliberal, por exemplo, que não aceita os direitos sociais como direitos fundamentais, desde a falsificação da história e da desconsideração da árdua e extensa luta por melhores condições de vida dos trabalhadores, e se fundamenta na superação da ética pela economia. O ser humano deveria, antes de qualquer coisa, optar pela ética, por um mundo mais humano, e não pela economia que radicalmente desumaniza a sociedade, segundo palavras do professor Antonio Pérez Luño (1996, p. 35-38)”(*).
Ah, eu sei que esta discussão vai longe, e eu vou voltar a ela. Tem tudo a ver com o conceito e o consumo de drogas, com o exercício das sexualidades, com a expressão das violências, com o direito das mulheres ao aborto, com as pesquisas das células-tronco, com o conjunto da vida contemporânea. Só trouxe o assunto porque ele é pouco elencado e aprofundado nestes mesmos meios de comunicação que fazem um grande estardalhaço quanto às liberdades quando, cotidianamente, os ferem em seus interesses econômicos e de classe. Diretamente, quem tem exercido o direito de expressão de suas idéias e opiniões são os proprietários dos meios de comunicação. As minhas opiniões, e as de qualquer um de nós, insignificantes mortais, não vão nunca ser manchete na grande imprensa nem ocupar os horários nobres da mídia eletrônica. Quando eles falam em ‘direitos’, estão falando em garantir os ‘direitos deles', ou dessa assim chamada ‘elite branca dominante’, que não tem nada de ‘fina’ nem de ‘flor’ prá se usar tal denominação...
Por isso, a instância da Lei e a necessidade imperiosa da voz judicial! A ‘dona Mônica’ pode não querer, mas os direitos fundamentais e humanos assim exigem, para que se possa garantir uma sociedade mais justa, mais democrática e mais solidária.

PS: a imagem aí eu roubei da Internet e me lembrou muito o estilo Botero, de quem comento mais adiante. E o texto citado foi transcrito do site http://www.ambito-juridico.com.br/ .

Dissimulações evidentes


Em fevereiro, passei uns dias com o Beto, na casa dele em Garopaba, e fiquei confinado à TV aberta. Na verdade a três canais, mas que seriam os ditos principais, de maior audiência. Nossa!, o que está reservado à maioria dos brasileiros! Lições de mediocridade, moralismo e boçalidade.
Aparentemente, é quase um insulto até mesmo à ignorância. No entanto, tem uma finalidade muito bem orquestrada, inteligente e politicamente articulada: basta ver que se reproduz ali o que igualmente é oferecido através da grande imprensa. Sim, PHA, o PIG está presente ali de cabo a rabo: no noticiário, na telenovela, nos programas de auditório, nos programas supostamente humorísticos e nos reality e talk-shows. Ingenuamente esquecido que o lameirão é o mesmo, lamentei a falta da TV paga.
Noite destas, querendo não pensar muito, liguei a TV prá me distrair zapeando pelos canais a cabo, e de repente entrei no meio do Saia Justa. Já não tenho a esperança de encontrar a inteligência da Rita Lee, mas nunca me sinto devidamente prevenido quanto ao que vou ver e ouvir. Para os meus princípios, o quarteto vem se comportando quase como uma choldra indecorosa, abertamente quando se trata do governo Lula. Mas, nessa noite, falavam sobre a importância da liberdade de expressão de idéias, de opinião.
A Márcia comentou elogiosamente a ação judicial movida pela ONG gaúcha Themis - Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero contra a gravadora que veiculou aquela música (não sei o nome!) que tem o refrão “um tapinha não dói, um tapinha não dói”. Nem entro na questão da construção desequilibrada dos poderes de gênero. Quero comentar apenas que a Mônica pulou, com o autoritarismo e o senso comum de sempre: “não quero que um juiz decida o que posso ouvir ou não”, defendendo com aparente intransigência a liberdade de opinião e de expressão de todos. E disse que isso não aconteceria nos Estados Unidos por conta do que determina the first amendment constitucional. Além da visão rasa desse dispositivo, o que me doeu foi colocar aquele país como modelo de democracia! Não, ela não se voltou para países europeus que têm avançado no respeito aos direitos individuais: ela optou pela imagem da propaganda.
Então, foi-se por água abaixo o prazer diletante... Ora, é justamente este tipo de atitude que me incomoda ao âmago quando ouço falar em ‘direitos’ da sociedade moderna à propriedade privada, à liberdade de imprensa, e por aí vai. Direitos de quem? Sim, afinal de contas, quando repetimos esta fala tão melíflua, tão agradável aos ouvidos, estamos falando dos direitos de quem? Gente: devagar com o andor que a hipocrisia é de barro!

domingo, 30 de março de 2008

Doida ou santa?


“Ficções do Interlúdio/2”
Fernando Pessoa

Não sei se é amor que tens ou amor que finges,
O que me dás. Tanto me basta.

Já que o não sou por tempo,
Seja eu jovem por erro.

Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva é verdadeira.
Aceito, cerro olhos: é bastante.
Que mais quero?

Quase outono 3


Não sei se é fase mais íntima e pessoal ou se é por conta da chegada do outono: estes dias claros e límpidos, cheios de luz e azul, me fazem pensar em ritmos, pulsações, transitoriedades. Como se estes dias me apontassem significados óbvios. Como é que o óbvio e evidente pode conter mistérios? Pegar um caminho menos percorrido é como alçar vôo: ou nos remete às altezas ou às profundidades do abismo. Á vida é sempre incomensurável. O amor é sempre incomensurável.

Olha só o que disse Emily Dickinson neste texto que achei nos meus guardados:

“Duas borboletas saíram ao meio-dia,
Valsaram por cima de um arroio
E repousaram sobre um raio de luz.
Depois as duas partiram
Por sobre um ar reluzente,
Ainda que porto algum até hoje
Mencionasse que chegaram.
Se uma ave distante lhes falou,
Se no ar etéreo encontraram
Uma fragata, um cargueiro,
Não fui informada”.



(A imagem postada em thewildpomegranate.wordpress.com: o nome da obra é "Fly the Fruit", de Linda Herzog)

Quase outono 2


Ontem meu amigo Heinz passou lá em casa prá bater um papo. Há pouco tempo ele passou por uma experiência dolorosa de diagnóstico e tratamento de um câncer. Depois de muito papo e de muito cutucar a pantera, acabamos entrando nos mistérios da vida e da morte. Não com a pretensão de desvendar os segredos cotidianos do viver e do morrer, expressos de formas tão diversas, mas com a humildade de reconhecer a transitoriedade em que estamos imersos.

Claro que no fundo, - nem tão fundo! -, habita a pergunta: qual o sentido de tudo isto? Mas será que esta é a pergunta certa? Será que cabe qualquer pergunta? Talvez seja inútil convocar a Razão estando no território da Intuição. A intuição não pergunta: ela revela. Não é uma questão de fé, pois a fé depende da experiência relatada de outro. A intuição não fala: ela sente. Eu não preciso de calendários para reconhecer o outono.

(A imagem é de Robert A. Baron e achei em studiolo.org)

Quase outono1


“Ficções do Interlúdio/2”
Fernando Pessoa


Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento.

Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço á Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.

Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.


Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?


(A imagem é da wallpaper eu achei em integral-options.blogspot.com)

sexta-feira, 21 de março de 2008

A Serenata


Esta poesia é uma das mais lindas da Adélia Prado e uma das que mais gosto.

Eu conheci Adélia pelas mãos da Fernanda Montenegro: “Dona Doida”, em janeiro de 88, no Rio (logo depois revi no Theatro São Pedro). Vê bem se não é um luxo:

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

A foto é de Rodney Smith - “Gary descending stairs” (1995)

Magias despercebidas


(...)
Geografia

O dia que passa é um gato que dorme ao sol de verão.
É uma árvore sacudida pelo vento do outono.
O dia que passa é um riacho que corre sem pressa para o mar. Por mais lento que seja, o riacho acabará no mar.
Tudo isso a que nos acostumamos – o regato, o outono, o sol, esses movimentos e pausas – é destinado ao esquecimento, incorporando-se às leis do quotidiano.
No entanto, são coisas assombrosas.
(...)

Trecho do texto “Palavras (27)” do Assis Brasil (Luiz Antonio de) no Segundo Caderno ZH (10/03/08).

A foto é de Michael Forsyth - “Storm-battered beach” (dec/2006).

Luas de Sangue


Eu acordei às 3:00 da manhã prá ir ao banheiro e vi a lua. Era uma enorme e nítida bola alaranjada parada no céu. Tantas vezes eu já vi a lua cheia, tantas vezes eu já vi suas cores, e mesmo assim é sempre uma espécie de espanto, uma surpresa, como se eu tivesse de novo o meu olhar de menino. Sei lá, talvez nunca tenha perdido, talvez tenha estado sempre ali e meu olhar de adulto só fica na frente atrapalhando.
A gente envelhece e, dizem, fica mais sábio. Eu não quero a sabedoria: quero a inocência do olhar que tive. Mas a inocência não cabe na velhice, a não ser nestes lampejos da memória, nestas pequenas centelhas de assombro momentâneo.
Hoje é a Sexta-Feira Santa, da Paixão de Cristo. Prá haver a paixão é preciso a lua cheia, essa lua transformista que nasce brilhando como prata e se afasta coberta de fulgores rubros.
É maluco isso de Paixão significar tanto um amor intenso quanto extremado martírio. Seja como for, é sempre uma exaltação da alma. De certo modo, a lua cheia realiza a paixão.
Essa estonteante lua de hoje cedo, no entanto, nem se compara a uma outra, vermelha e enorme que vi quando ia mergulhando no mar Egeu. Na madrugada de 5 prá 6 de setembro de 98, eu estava em Santorini, na Grécia. Ta lá, nos meus escritos da viagem, um registro desse assombro, em dias de indissolúvel paixão. Transcrevo:

(...) Escolho um restaurante com mesas em espaço aberto, e sento numa bem próxima à borda do terraço que se debruça sobre a cidade, voltado para o lado de fora da cratera. Brisa suave embala essa janta com vinho e luz de vela, sob uma lua cheia encantada que acabou de sair.
A magia do crepúsculo ainda está ocupando meu espírito, apesar deste lugar ser igualmente lindo. A noite está suave: não há arestas. A luz tênue do restaurante não compete com o luar. De longe, chegam melodias alegres, mas não há ruídos. A comida estava saborosa. Tudo perfeito. Mas ainda tenho nos olhos o brilho áureo daquele mar. É até difícil definir que cor foi aquela, porque se eu disser dourado, vai lembrar a cor do ouro barroco, emplastrado, pesado. E o que eu vi foi céu e mar ficarem como que recobertos por uma névoa acobreada, de um ouro sutil mas brilhante, como o brilho ofuscante que nos atinge de um tesouro revelado. Aquela cor, eu não sei descrever. O máximo que eu posso dizer, com o risco de provocar algum engano, é que foi um por do sol dourado.
Depois da janta, impossível voltar ao hotel. Saio a caminhar pelas ruelas cheias de gente, completamente embevecido. Dou uma volta grande, vagarosa. Tomo um sorvete, compro uma canga vermelha com peixes amarelos e azuis e, ainda, um tapete colorido para o meu banheiro.
Desperto no meio da noite, com um estranho brilho entrando pelas vidraças da janela. Vou até a janela e não acredito no que vejo. Fui acordado por uma lua cheia cor de sangue, quase tão grande e vermelha como o sol nascente que me recebeu em Madrid: um por-de-lua como nunca visto. Tonto de sono, como se fosse num sonho, sob o estranhamento a que ainda estou preso, acompanho a entrada da lua num mar tingido de púrpura, no mesmo lugar dourado onde pouco antes se pos o sol. Por aqui os astros são tão solenes e têm tanta majestade que é fácil imaginar que são dirigidos por deuses ao cruzar o céu em sua missão diária.
Durmo até tarde, em estado de graça. (...)

(A foto eu roubei de http://www.mreclipse.com/)

domingo, 16 de março de 2008

Quase um Magritte


A foto do Caio com esse chapéu surrealista eu acho que tirei do mesmo site de onde copiei a crônica (www.releituras.com) e essa micro-biografia aí de baixo, um minimizado perfil prá um sujeito do tamanho dele. Se não me engano, é a foto da contracapa do livro “Morangos Mofados”.


Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu no dia 12 de setembro de 1948, em Santiago do Boqueirão (RS). Jovem ainda mudou-se para Porto Alegre onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois Artes Dramáticas, mas abandonou ambos para dedicar-se ao trabalho jornalístico no Centro e Sul do país, em revistas como Pop, Nova, Veja e Manchete, foi editor de Leia Livros e colaborou nos jornais Correio do Povo, Zero Hora, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. No ano de 1968 — em plena ditadura militar — foi perseguido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), tendo se refugiado no sítio da escritora e amiga Hilda Hilst, na periferia de Campinas (SP). Considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos de qualquer ordem, evidenciando uma temática própria, juntamente com uma linguagem fora dos padrões normais. Em 1973, querendo deixar tudo para trás, viajou para a Europa. Primeiro andou pela Espanha, transferiu-se para Estocolmo, depois Amsterdã, Londres — onde escreveu Ovelhas Negras — e Paris. Retornou a Porto Alegre em fins de 1974, sem parecer caber mais na rotina do Brasil dos militares: tinha os cabelos pintados de vermelho, usava brincos imensos nas duas orelhas e se vestia com batas de veludo cobertas de pequenos espelhos. Assim andava calmamente pela Rua da Praia, centro nervoso da capital gaúcha. Em 1983 transferiu-se para o Rio de Janeiro e em 1985 passou a residir novamente em São Paulo. (...) Volta à França em 1994, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros. Lá escreveu Bien Loin de Marienbad. Ao saber-se portador do vírus da AIDS, em setembro de 1994, Caio Fernando Abreu retorna a Porto Alegre, onde volta a viver com seus pais. Põe-se a cuidar de roseiras, encontrando um sentido mais delicado para a vida. Foi internado no Hospital Menino Deus, onde faleceu no dia 25 de fevereiro de 1996.

The Aero

A tela que eu usei prá ilustrar o post Quase Literatura chama-se The Aero e é uma das muitas e maravilhosas telas de Marsden Hartley (1877 – 1943), pintor e poeta estadunidense que eu desconhecia completamente até 1985. Eu tinha ido para os EUA, em junho, através de uma bolsa de estudos do Programa Fulbright, bancado pelo governo daquele país. Estava morando em New Orleans e cursando a Escola de Saúde Pública da Tulane University, mas fui conhecer essa tela em Washington, durante um seminário acadêmico realizado em novembro daquele ano, com a participação de outros bolsistas. Um dia, optei por dar uma volta pela cidade e entrei na National Gallery of Art, sobre a qual tinha lido num destes prospectos prá turista que havia no hotel. Fiquei curioso. Transcrevo um manuscrito daquela época, achado entre meus guardados:

"Lembranças de Washington – Estou cansado do workshop com os Humphrey Fellows. Saio da sessão no Capitólio, um encontro maçante com políticos, democratas e republicanos, e vou até o hotel, o Capitol-Holliday Inn, a poucas quadras dali. Troco de roupa e passo no correio, mandando notícias pro Brasil. Depois da chuva, está mais quente, embora o vento ainda informe que é outono. Sol de meio dia. Do centro comercial na L’Enfant Plaza, caminho até a National Gallery of Art. Encontro surpreendente com alguns pintores, principalmente Monet. (...ilegível...)
Na Gallery, não resisto e vou comprar reproduções de Picasso e Monet. Vejo uma pintura linda, quente, parece um Gauguin. Não é, é outro autor, compro igual. Sigo ainda pelo Museu até a (...ilegível...) e finalmente me vejo frente a frente ao quadro, esfinge: é de Marsden Hartley, 1877-1943".


De fato, vi primeiro a reprodução da instigante tela na lojinha do museu, mas nunca pensei que a tela estaria ali, ao meu lado. Pois lá pelas tantas, voltando às obras expostas, ao entrar num dos muitos corredores, fui súbita e fortemente convocado por uma chama viva, ardente, vermelha, pulsando numa parede. Que coincidência: era a tela da reprodução que há pouco comprara. Mas não existem coincidências! Emoção: era como se ali estivesse concentrada a energia vital de todo o universo, tal o impacto que me causou. Cheguei perto e anotei o nome do autor. Por minutos, não consegui deixar de me envolver na sua visão: era tão linda e comovente, como se contivesse os segredos e a essência de todas a s coisas. Quantas coisas descobri em reflexões provocadas por esta obra. Ainda tenho a reprodução da tela, embora de tão velha esteja apenas guardada, e ainda me impressiona, mas não com o vigor de então. No entanto, até hoje, é a minha imagem preferida para representar uma fulminante revelação.

sábado, 15 de março de 2008

Pequenas epifanias

Acho difícil que alguém não conheça o Caio Fernando Abreu, que eu citei no post anterior. Aos que não conhecem, ofereço uma crônica do Caio que encontrei no site www.releituras.com, (que vale a pena visitar). Ela não é muito grande, mas é saborosa como outros textos de sua obra.

Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de "minha vida".
Caio Fernando Abreu

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
(Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", 22/04/1986).

Quase literatura


Eu entendo que um blog, mesmo quando é um arremedo dos velhos ‘diários’, cria uma nova forma de expressão por conta da sua capacidade interativa. Não só porque quem escreve faz uma declaração pública, posto que a expõe numa rede universal, mas sobretudo porque permite comentários a partir dos leitores. O autor do texto não ‘fecha’ sua opinião, embora delimite os contornos de seu ponto de vista.
Ao ler um livro, sempre gostei de sublinhar passagens que me parecem muito significativas. Algumas idéias transformadas em palavras são como a descoberta de significados antes escondidos. Por isso mesmo muitas vezes fiz e faço comentários a lápis na própria página do livro, um hábito só irrealizável quando o livro é de biblioteca ou emprestado por algum amigo. No blog, a possibilidade de comentário do leitor se esboça no tempo real e pode alcançar tanto o autor quanto outros leitores.
As letras não são apenas sinais gráficos que representam o som da fala humana: escrever é especialmente o esforço de fazer a representação de uma idéia. Muitos autores literários têm essa capacidade tão desenvolvida que é como se pintassem quadros, nos quais não se vê apenas coisas mas os seus significados. Essa capacidade fica dilatada no blog, por conta de poder agregar uma foto ou ilustração.

As coisas mais prosaicas, as vivências mais singelas, podem ser coloridas pela força das emoções associadas nesse espaço de diálogo coletivo. Quem vive atentamente decifra revelações no cotidiano. O exercício da escrita, em qualquer mídia, pode representar uma revelação adicional tanto para o autor quanto para o leitor.
Escrever, num blog ou alhures, assim como viver, é sobretudo desfrutar de pequenas epifanias, como diria Caio Fernando Abreu.

Caminhas sobre meus sonhos


Ontem o Fabiano ia lá prá casa, mas o carro dele pifou na Ipiranga, perto da Colombo Megastore. Ele até passou lá em casa e conversamos, mas depois ele foi consertar o carro e voltou prá casa dele.
As relações humanas são tão sutis, tão cheias de nuances: exigem nossa melhor delicadeza.
Hoje eu acordei com a minha poesia favorita na cabeça. É do poeta irlandês Yeats e diz assim:

He wishes for the cloths of heaven

Had I the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

William Butler Yeats (1865-1939), The Collected Poems, Macmillan, NY, 1956

A foto de um céu ornamentado eu achei num site da internet chamado flyoverpeople.net. E a minha tradução livre do poema ficaria desse jeito:

Ele queria ter os tecidos dos céus

Tivesse eu os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luzes douradas e prateadas,
Os tecidos da noite em azul e em tons esmaecidos e escuros
E em luzes e meias-luzes,
Eu espalharia estes tecidos sob teus pés:
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas meus sonhos;
Eu tenho espalhado os meus sonhos sob teus pés;
Caminha suavemente porque caminhas sobre meus sonhos.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Quase um ensaio


De fato eu estou buscando um espaço de prazer. O prazer de poder construir e expor uma obra, que no fundo não é mais do que a possibilidade de poder se apropriar de mim mesmo e das coisas que estão a minha volta dando um novo contorno. Cada movimento de expressão é uma tentativa de redefinir contornos: fazer os movimentos é quase ampliar limites. Seria 'puro' deleite, não fosse a necessária aprendizagem de utilizar uma linguagem nova e desconhecida: um desafio que desacomoda mas que, ao cabo, pode instigar o desejo e aumentar o prazer.